quarta-feira, 8 de abril de 2015

Pelo 8 de março


Sob os óculos escuros
Naquele início de noite eu já na estava na sala de aula da faculdade. Sozinha ainda, organizava o material sobre a mesa. Ela chegou sorrateiramente e me cumprimentou. Ergo o olhar e deparo com seus óculos escuros, e na pressa, temendo contaminação, pergunto se é conjuntivite. Fica calada e lentamente tira os óculos e mostra o olho com um ponto de sangue "pisado" e um imenso hematoma. Abaixou a cabeça, e num sopro diz que havia sido agredida pelo marido. Nada falo e já preocupada com a chegada dos alunos, pego minha bolsa e a arrasto para o banheiro mais próximo, que também estava vazio. Tiro os meus apetrechos de maquiagem e passo corretivo, base e ofereço batom para ficar com a cara mais alegrinha. Ela aceita. Distancio um pouco para avaliar o resultado da intervenção e falo alto: "- Perfeito! Agora sim, pode assistir à aula! E guarde esses óculos! " Ela guarda e quando se prepara para sair, pois já ouvíamos o farfalhar de vozes no corredor, ternamente, a puxo pelo braço. Dou o mais longo e apertado abraço que já dei em uma mulher e vamos correndo para a sala, já com alguns alunos. Ela se assenta e da sua carteira me dá um sinal positivo com o polegar, conjugado com um risinho. Retribuo os sinais já me preparando para escrever com o giz na mão. A aula transcorreu como o planejado. Não falamos mais no assunto e um tempo depois disse que estava ,"agora" , tudo bem com ela. Somente nós duas sabíamos do significado daquele "agora". Daquela mulher já não sei o nome mas aquela maquiagem, aquela circunstância trago na minha história de mulher. Aquela aula gerou uma dúvida eterna sobre aquela, a violência doméstica. Naquela hora o quase mudo debate sobre aquela tamanha dor foi tão superficial quanto a maquiagem?

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