quarta-feira, 8 de abril de 2015
Da esfera doméstica
O interfone toca insistentemente. Atendo, e de lá, uma voz impaciente diz que é da COPASA. Pergunto se a zeladora não está nas imediações, no portão da entrada, e a voz diz que não. Abro o portão insegura. Em menos de um minuto a insegurança vira medo e a minha fértil imaginação cria histórias mirabolantes. Quem será? Por que tamanha rispidez na voz? E se for um mal intencionado? E se tiver crianças brincando lá embaixo? Me faço tais e outras perguntas já descendo as escadas, observando os espaços, procurando a zeladora. Desço o segundo lote de escadas do prédio da frente, e nada. Com o coração já na boca, penso o pior. Mais uma varredura com olhos de lince e...ufa! Vejo alguém agachado perto do cercado da área de festas. Diminuo o passo, contenho a respiração, faço ares de tranquilidade e chamo a sua atenção, perguntando se havia encontrado com a zeladora. O sujeito se levanta e me olha. Me olha atentamente já parado. Parada olho-o também e pergunto se o conheço ou se ele me conhece. Ele sorri largamente e diz: "- A senhora foi minha professora, lá no Municipal !" Sorrio correspondendo. Olhando-o mais de perto, fala o seu nome, que vejo tatuado junto a outro no antebraço esquerdo. Narra o motivo de sua vinda: trocar os relógios medidores. Ajudo-o a encontrar os locais. Faço uma breve entrevista sobre a sua vida...Conto o episódio. Ele ri e concorda com os meus cuidados. Despeço desejando boa sorte na vida e ele deseja o mesmo, já completamente relaxado sem aquele tom ríspido. Lembro-me então que " professor/a é um corpo em evidência", como disse uma especialista. Mas a todo momento constato que: "mais do que o corpo, professor/a é uma vida em evidência".
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